Escadas nas quais me sentei
E de um simples cigarro puxei
Simples cigarro dador de fumo
Dador de paz e morte
Neste último degrau
Ouvi e falei
Expus-me como nunca antes
E ouvi o silêncio
Tive exactamente o que pedia
Tinha tanto tempo que não o ouvia
Havia tanto que não me sentava
Já tinha passado muito mesmo
E falava o silêncio
Sussurrou-me serenidade
Deu-me felicidade
Felicidade pelo silêncio.
E podem acusar.me de loucura
Podem colocar-me em uma camisa de forças
Dizer para escreveram na primeira página:
"É louco"
Não me importa muito;
Já não sei o que importa há muito.
Na minha sóbria embriaguez
Apenas subo escadas que desço.
Pés cansados
E tantos pensamentos apagados
Fruto de escadas
De longas madrugadas
De cigarros mal apagados,
E tantos pensamentos falhados
Tantas escadas perdidas,
E sonhos... o que são?
Sento-me,
Sinto-me.
Não me sinto decerto,
Não há nada para sentir.
Não há eu ou eu
Não há pés,
E escadas...?
Perderam-se, sempre se perdem.
Tenho asma.
Tenho saudade.
Tenho pena de mim,
Já não posso subir escadas
A velhice chegou.
Tempo de aceitar que se foi;
Foram tempos de juventude,
Tempos de mim.
São escadas.
Lavadas com lágrimas, muitas;
Elas tem tanto para reclamar de mim,
Por tanto tempo
Que nem estarei mais materializado
Quando as reclamações cessarem.
Escadas que construí
E as quais não posso subir
E por tantas escadas destruir
A asma alastrou-se,
E nem o último fôlego
Me é administrado
O Oxigénio puro não serve
As novas tecnologias,
Elevadores e outras engenhocas de doutores:
Completamente inúteis.
Inútil eu,
Inúteis estes pés,
Inúteis os fôlegos
Para quem já nem abre os olhos.
Velhice...
Velhice...
Velhice...
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